Decidi começar no blog uma série de entrevistas com diretores e pessoas envolvidas no cenário de horror contemporâneo, discutindo os principais temas relativos ao gênero e ao cinema hoje em dia, questões como a importância do cinema independente, a importância dos novos veículos de comunicação e mídias sociais para o cenário independente, o que há de bom sendo produzido atualmente e muito mais.

Para começar essa nova iniciativa, que será algo inédito no Brasil, convidei o Diretor e Roteirista norte-americano Eric England, diretor de “Madison County” (2011) e “Contracted” (2013), filme que lançou o diretor como um dos potenciais grandes nomes do Horror nos próximos anos. Nesta primeira entrevista falamos sobre os projetos antigos e novos do diretor, influências e também sobre o cenário contemporâneo. Eric é um cara excelente, a conversa foi super leve e divertida, durou cerca de trinta minutos. Segue a transcrição traduzida da entrevista.

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Daniel: Seu primeiro filme é de 2010, correto? Hostile Encounter (traduz para Encontro Hostil, mas o filme não tem nome oficial em português)

Eric: Hostile Encounter foi mais um experimento na verdade, foi algo que fiz por conta própria, com ajuda de amigos, tentando provar para as pessoas que eu poderia fazer um filme. Eu paguei por tudo, praticamente fiz o filme com outras três ou quatro pessoas. Nós usamos isso como uma demonstração para conseguir o financiamento para Madison County, então na verdade eu considero Madison County meu primeiro filme, mas Hostile Encounter é realmente o primeiro que eu filmei.

E qual é o enredo do filme (Hostile Encounter)?

O filme é sobre um homem que é abandonado pela noiva repentinamente e pra tentar lidar com isso sai em uma espécie de jornada de auto-conhecimento através do país, completamente sozinho. Ele se aventura na natureza selvagem e acaba encontrando com duas pessoas fazendo algumas atividades ilegais. É meio que um filme bem simples sobre coisas que vão terrivelmente errado para um homem em uma jornada espiritual.

Aonde nós podemos encontrá-lo?

Nunca foi lançado e eu não sei se um dia lançarei. *risos*

Eu acredito que o processo criativo entre esse primeiro filme e Contracted tenha mudado muito, considerando que o ultimo foi lançado internacionalmente. O que mais mudou no que se refere a produção, escrita e direção?

O lançamento internacional não me afetou tanto, além da exposição claro, mas em termos de processo, ter feito filmes antes de Contracted me permitiu entender como usar meus recursos, estender a verba bem além do que normalmente poderíamos e me deu uma experiência natural. Eu acredito que quanto mais prática você tem com alguma coisa, melhor você fica e felizmente eu tive muita prática antes de Contracted, o que me permitiu um maior controle, já que não tínhamos muitos dias ou dinheiro para fazer o filme. Então eu acredito que tive maior entendimento de como controlar esses recursos e fazer o filme da melhor forma possível, o que parece ser um dos motivos por trás do sucesso do filme.

Seu filme Madison County está disponível no Netflix?

Eu acho que está disponível no Netflix Americano apenas, através do serviço de aluguel de DVD. Esteve online por um tempo também, mas não mais.

Madison County

Eu vi muitas pessoas comentando sobre Contracted através do Netflix, você acredita que o site ajudou a espalhar Contracted para o mundo?

Com certeza! Netflix é gigante em termos de visibilidade, é o lugar onde as pessoas assistem filmes hoje em dia, eu mesmo pessoalmente não tenho mais TV a cabo, tenho apenas Netflix, tudo que eu assisto está lá, então é crucial para que mais pessoas conheçam seu filme.

Você consideraria o Netflix uma ferramenta poderosa para cineastas do cenário independente?

Sim. Em termos de visibilidade é ótimo para pequenos filmes ser lançado no Netflix e ter milhões de pessoas assistindo, quando normalmente esse público não procuraria esse tipo de filme ou não teria acesso a ele. Mas o lado negativo é que no Netflix os cineastas não ganham muito dinheiro porque eles não recebem cada vez que alguém assiste o filme, então no lado financeiro isso acaba por prejudicar o filme independente, já que você recebe um valor uma única vez e esse valor não é alto. E é essa parte financeira que permite que os cineastas façam mais filmes bons. Mas em relação a visibilidade, é a melhor coisa que temos agora.

Existe uma opção melhor então para os cineastas independentes, na parte financeira?

Sim, seria o tradicional VOD (video sob demanda), como por exemplo iTunes e TV a Cabo sob demanda (Ex: Now e HBO GO), aonde pessoas tem que pagar para assistir um filme, ou então ir ao cinema, obviamente, o que eu sempre prefiro fazer. No entanto, hoje em dia não é uma opção realística para todos os filmes serem lançados no cinema por exemplo, então eu acho que o melhor meio é aquele que dá um retorno financeiro maior para que eles possam continuar a fazer filmes. Netflix dá um dinheiro adiantado, mas você não ganha cada vez que alguém assiste seu filme, o que seria ótimo, porque se milhões de pessoas assistem o filme e pagam por ele, seria muito lucrativo, mas no final das contas o Netflix é bom mesmo apenas para visibilidade.

Eu reparei a algum tempo que você tem, como eu posso dizer, um bom relacionamento com a pirataria, você coleciona capas de versões piratas de seus filmes do mundo inteiro. Como você conseguiu estabelecer essa relação bem humorada com a pirataria, que é um tema tão controverso?

Eu acho que aprendi a aceitar coisas que não podemos mudar. Eu sei que não sou capaz de acabar com a pirataria mas eu quero que as pessoas vejam meus filmes, então de uma forma estranha, quando Contracted é pirateado entre alguns dos maiores e mais caros filmes do momento, é meio que uma honra, me mostra que as pessoas realmente querem ver o filme, mesmo em países em que o filme pode não estar disponível, mas é realmente controverso. Quando Contracted estava para ser lançado em Hong Kong e no Japão, eu reparei que o filme estava sendo muito pirateado e isso era dinheiro que estávamos perdendo já que o filme foi lançado nestes lugares, mas ao mesmo tempo, se existe um país em que o filme não saiu e a única solução aparente é a pirataria, eu não consigo ficar irritado com isso, apesar de que eles poderiam muito bem ter importado o Blu-ray ou DVD do filme. A moral da história é que eu não serei capaz de enfrentar sozinho a pirataria, então eu aprendi a encarar isso como uma lisonja, eu meio que tenho que aceitar o que está acontecendo.

Sempre que vejo alguém vendendo filme pirate aqui no Brasil eu tento encontrar uma cópia de Contracted para te enviar, mas ainda não encontrei!

*risos*

Ok, eu agradeço!

Falando sobre o público então, eu reparei que boa parte das pessoas que gostaram de Contracted são jovens, você percebeu algo semelhante?

Sim, com certeza, eu reparei que existe um público mais jovem que encontrou o filme, o que foi surpreendente mas ótimo ao mesmo tempo. Quando eu assistia filmes quando mais jovem, eles me marcavam mais facilmente de forma que eu ainda me lembro da maioria, então eu acho que isso dá ao filme uma maior longevidade e é assim que pessoas constroem grandes carreiras. O fato de um público mais jovem estar ligado no filme é excelente, porque são eles que realmente se importam e falam sobre o filme com os amigos e as opiniões passadas de boca em boca ajudam a dar visibilidade ao filme.

Eu não sei se foi uma impressão minha, mas me parece que essa conexão entre Contracted e públicos mais jovens acontece por causa da sua abordagem de temas como sexualidade e DST’s no filme, o que são assuntos em constante debate para os jovens.

Sim, concordo plenamente, eu acho que fizemos o filme de forma que eles possam se identificar. Eu tentei fazer um filme bem direto, onde os cenários são reais, as pessoas são reais. Eu acho que quando se está entre as idades de 17 e 25 anos, você está passando por mudanças pessoais muito grandes, você passa a questionar quem você é e porque as coisas acontecem do jeito que acontecem, então eu acho que é algo que muitas pessoas nessa idade conseguem se relacionar, eles olham para o filme e é assustador para eles, que também tem suas experiências difíceis.

Qual sua idade?

Eu tenho 26 anos.

Então isso faz de você dois anos mais velho que eu, o que quer dizer que nós praticamente crescemos com as mesmas referências de filmes de horror. Se eu não me engano seu filme predileto é Pânico (1996), certo?

Sim, isso mesmo.

Pânico

Além de Pânico, quais outros filmes você considera como importantes para sua carreira?

Eu sou um grande fã dos clássicos, então é difícil de apontar alguns específicos, mas eu sou muito fã de Psicose, eu amo Halloween e Enigma de Outro mundo de John Carpenter, O Massacre da Serra Elétrica original, gosto do remake também. Eu sou muito fã dos filmes antigos baseados em Stephen King, como por exemplo Christine, Cemitério Maldito e Carrie A Estranha. Eu tive uma “dieta” muito boa de filmes de terror. A Hora do Espanto e Garotos Perdidos foram dois dos primeiros filmes que assisti. It – Uma obra prima do medo de Stephen King é um dos meus filmes favoritos de todos os tempos e um dos primeiros que vi também. Tem muitos clássicos que gosto, mas também sou fã de alguns clássicos modernos também.

Você acompanha o cenário contemporâneo de terror?

Sim, com certeza, acompanho bem de perto.

Então quais diretores e filmes você recomendaria dessa safra mais recente?

Tem muitos caras talentosos por aí, Adam Wingard e Simon Barret, que fizeram Você é o Próximo e o filme novo The Guest.

Você já assistiu? (The Guest)

Sim, eu amei. É muito bom e Simon é um ator em Contracted e um amigo meu, são caras bem talentosos. Tem também um filme chamado Almost Human que saiu recentemente e é muito bom, também feito por amigos meus. Tem um filme chamado The Battery que eu gosto muito e também sou fã de Ti West e seus filmes tipo House of the Devil. Existem muitos caras bons por aí, fazendo filmes bem legais.

Existe alguém específico que você gostaria de trabalhar no mundo do terror?

Existem vários atores que eu gostaria de trabalhar, mas ninguém específico por hora. Na minha cabeça eu adoraria adaptar um livro ou um conto de Stephen King algum dia, é algo que eu realmente gostaria de fazer, mas além disso eu só quero continuar produzindo coisas legais.

Qual história dele você tem mais vontade de adaptar?

Eu não sei ao certo, eu sou fã de todo o trabalho dele, apesar de que não li as coisas mais novas, então eu teria que procurar saber o que está disponível. Se algum dia quiserem fazer um remake de Comboio do Terror ou de Carrie ou algo do tipo, eu gostaria de revisitar essas histórias e tentar trazer algo novo. Eu acho que teria interesse em saber o que ainda não foi adaptado, procurar um pouco pra saber qual eu realmente gostaria de fazer.

Falando sobre revisitar filmes, qual sua opinião sobre remakes?

Eu sou fã deles. Eu assisti o remake de Massacre da Serra Elétrica antes de ver o original. Eu acho que por causa da minha idade, eu cresci em uma época, no início dos anos 2000, em que filmes de gênero estavam constatemente sendo refeitos e isso me levou a conhecer muitos outros filmes, então eu acho que remakes podem ser uma coisa muito boa, especialmente se bem feitos. Eu acho que as pessoas não gostam de remakes porque geralmente eles são ideias de estúdios, os estúdios dizem “Hey, nós temos esse material que fez muito dinheiro no passado, então vamos ver se conseguimos reciclar esse material e fazer dinheiro novamente” e isso é a motivação por trás desses remakes, eles só querem fazer dinheiro, não se importam com o conteúdo do filme original e esse é o problema, a razão pela qual remakes são tão mal vistos. Eu pessoalmente acho que se existe um filme sensacional lá fora e é possível colocar um diretor de qualidade para recontar essa história, eu assistiria todos os remakes do mesmo filme mesmo que saíssem um por ano. Eu realmente acredito que remakes podem ser uma coisa boa, é apenas uma questão de encontrar o cenário adequado no qual o cineasta tenha controle e possa fazer algo digno.

O Massacre da Serra Elétrica é seu remake favorito?

Considerando remakes, eu diria que ele está entre os meus preferidos, mas eu acho que O Enigma de Outro Mundo de John Carpenter é o meu favorito, mas definitivamente o remake de O Massacre da Serra Elétrica tem seu espaço.

Você viu Maníaco (2013)? É meu remake favorito desses mais novos.

Sim, Maníaco é ótimo. Muito bom.

Você tem intenção de fazer filmes fora do gênero Terror?

Sim, tenho. Mas eu acho que tudo que eu fizer vai ter uma pitada de terror, então não é como se eu fosse um dia abandonar o gênero. Mas eu tenho outros filmes que são mais engraçados, alguns de ficção científica que eu gostaria de fazer e outros gêneros que tenho vontade de tentar, de colocar meus dedos, mas horror é onde eu estarei na maior parte da minha carreira.

Isso é uma ótima notícia. Fã de horror que sou, fico sempre feliz de ver um diretor dedicado ao gênero.

Sim!


Falando sobre o cinema em geral então, você acha que o cenário independente pode influenciar o mainstream e vice-versa?

Com certeza. No meio independente, existem filmes como A Bruxa de Blair e Atividade Paranormal, que foram lançados e fizeram muito dinheiro e a primeira coisa que vemos é uma série de filmes found footage sendo feitos pelos estúdios, então eu acredito que influencie sim, especialmente no terror. Os estúdios e o mainstream são muito influenciados pelo cinema independente. Eles vêem o que funciona, a nível independente, com o público e depois eles tentam levar esse mesmo público ao mainstream, o que nem sempre dá certo, já que eles estão apenas imitando, tentando copiar. Considerando os primeiros A Bruxa de Blair e Atividade Paranormal, a razão pela qual as pessoas amam esses filmes e as sequências são ruins, é porque os originais foram feitos com paixão, a única motivação era fazer um filme bom, eles nem sabiam se alguém se interessaria e como eles fizeram milhões de dólares, os estúdios perceberam e ficaram tipo “Caramba, nós devíamos fazer isso também”, então o dinheiro passa a ser a motivação, deixa de ter paixão envolvida. E eu também acho com certeza que o mainstream influencia o independente, um dos meus próximos filmes é voltado para um lançamento maior, em vários cinemas, e o único jeito de alcançar isso é fazendo algo nos moldes do que o Mainstream procura, mas claro, mantendo o espírito e a paixão do cinema independente, pra que não pareça que eu tenho os chefões dos estúdios me falando o que eu tenho que fazer. É um balanceamento estranho que precisa ser feito pra alcançar um equilíbrio entre os dois lados, é bem difícil.

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Falando sobre próximos trabalhos, seu próximo filme se chamará The Sirens?

Não, na verdade não. Eu provavelmente farei The Sirens no ano que vem, mas não é meu próximo filme não. Meu próximo filme na verdade eu não posso falar ainda qual é, mas as filmagens começam em duas semanas, com anúncios e tudo mais, mas ainda é no gênero terror só que com elementos de humor negro.

Agora eu fiquei bem curioso pra saber qual será esse projeto!

Legal, muito obrigado!

Me parece que o site iMDb tem muitos filmes listados na sua página, tipo Madison County 2. Quem adiciona esses filmes lá?

Pra ser sincero eu não tenho ideia, Madison County 2 mesmo eu nunca adicionei, não tenho idéia de como foi parar lá. Nós até pensamos em fazer o filme mas eu provavelmente nunca farei Madison County, então eu não sei quem coloca eles lá, mas sei que alguém precisa tirá-los de lá! *risos*

Você chegou a ver os últimos títulos adicionados lá, como por exemplo o curta The Settling?

Esse último eu realmente fiz, mas os outros filmes também são reais, existe um roteiro para Madison County 2 por exemplo, mas eu não sei se farei eles ou algum desses outros. Eles são filmes verdadeiros e eu já considerei dirigir, mas as vezes as pessoas se empolgam demais e acabam colocando projetos lá que nunca foram confirmados e de repente eu estou fazendo cinco filmes ao mesmo tempo. *risos*

Isso é de certa forma uma coisa boa, já que as pessoas estão interessadas na sua carreira a ponto de ficarem imaginando o que vem a seguir, não acha?

Com certeza! E pra cada filme que alguém lista no IMDb, eu tenho três outros projetos em andamento que ninguém sequer imagina, então eu estou trabalhando em muitos projetos que eu acredito vão me manter ocupado pelos próximos três a cinco anos, então sim, eu quero que as pessoas fiquem animadas e sabendo que eu estou trabalhando pesado para fazer algo bom.

Bom, então é isso Eric, agradeço muito a sua participação, por ter aceitado meu convite!

Muito obrigado, eu agradeço você me receber. Tenha um ótimo dia!

Até mais!

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Um comentário sobre “Entrevista com Eric England

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