“As Above, So Below”

Diretor: John Erick Dowdle

Sinopse: Um grupo de exploradores liderados por uma arqueólogo descem os misteriosos labirintos das Catacumbas de Paris em busca da câmara secreta do alquimista Nicolas Flamel, que pode guardar a lendária Pedra Filosofal, mas acabam se deparando com forças malignas.

Faz apenas alguns dias que “Assim na Terra, Como no Inferno” saiu repentinamente dos planos dos distribuidores e reforçou o contingente de filmes nunca lançados nos cinemas brasileiros por motivos sombrios. Para a satisfação daqueles que esperavam com ansiedade, o filme foi lançado em VOD (Vídeo sob demanda) e rapidamente caiu nas redes do pirate bay, por onde finalmente alcançou o público brasileiro. O que a princípio veio como notícia triste e desanimadora, se revelou uma benção, já que poupou inúmeros fãs de horror de pagarem por um dos produtos mais enganosos vendidos no mercado cinematográfico em 2014.

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Uma palavra pode definir o filme muito bem e esta palavra é “Marketing”. “Assim Na Terra Como no Inferno” foi anunciado com um arsenal pesado de publicidade a seu dispor, desde um poster fantástico e super chamativo até excursões temáticas e “aventuras” nas catacumbas de Paris, com participação do youtuber PewDiePie por exemplo, que arrematou incríveis 5 milhões e 690 mil visualizações – a título de comparação, “Annabelle” que é ao que tudo indica o filme de horror mais visto nos cinemas brasileiros de todos os tempos, levou 3 milhões de pessoas aos cinemas. Trailers e cartazes estavam a mostra em todo lugar, todos prometendo uma descida macabra e claustrofóbica pelas Catacumbas de Paris, mas o resultado final não cumpre absolutamente nada do que promete.

As Catacumbas são o “cenário” do filme em apenas alguns poucos momentos, já que os personagens rapidamente embarcam em uma jornada em busca da Pedra Filosofal por partes fictícias dos túneis. A parte real da maior cripta do mundo é porcamente explorada em prol de supostas câmaras ocultas que parecem saídas de uma versão fajuta de um livro de Dan Brown. Os supostos enigmas que são apresentados durante a aventura conseguem ser convenientemente específicos e de uma facilidade que questiona a inteligência do expectador. Um dos elementos mais interessantes a disposição do filme, relativo as catacumbas, seria a claustrofobia, elemento capaz de fazer muito marmanjo roer as unhas e que já foi brilhantemente explorado no terror “Abismo do Medo” e até no suspense/aventura “Santuário”. A única cena que se utiliza da claustrofobia no entanto é a mesma cena que aparece no trailer, mas logo depois já é sumariamente descartado.

Percebe-se aí outras das enganações que permeiam o filme, que é se vender como um filme de terror enquanto este é um elemento secundário frente a um enredo de aventura, já que acompanha os exploradores em uma jornada – pouquíssimo embasada por sinal – pela suposta pedra filosofal. É curioso observar a reação dos personagens que agem com ceticismo frente aos mais absurdos eventos e acabam por em momento algum passar sensação de medo ou perigo, existe sempre um senso de esperança mágica e segurança no ar, como se eles estivessem na companhia do próprio Indiana Jones. Praticamente todas as cenas de terror propriamente dito também estão presentes nos trailers, em uma clara tentativa de promover um filme com muitas cenas assustadoras, o que nunca ocorre.

Essa inabilidade de se aprofundar nos diversos elementos disponíveis é fruto de um roteiro raso, incapaz de desenvolver algo sólido e convincente em uma hora e meia de projeção. Absolutamente tudo em “Assim na Terra, como no Inferno” se passa em um piscar de olhos, menos o filme como um todo, que parece se arrastar pela eternidade.

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Ainda há a questão frequentemente debatida que o público parece ter esquecido depois de engolir meses de publicidade, o estilo de filmagem em primeira pessoa. O filme não é um falso documentário e muito menos uma fita encontrada, já que cada personagem tem uma câmera diferente consigo e essas câmeras tem os mais diversos destinos ao longo do filme, então o que justifica a opção pela filmagem em primeira pessoa? Em termos cinematográficos, absolutamente nada. Já em termos financeiros, significa uma produção mais barata e um lucro maior. Algo que parece não ter sido notado ainda por muitos cineastas é que o found footage é um gênero que cobra um preço muito alto, já que sacrifica vários elementos narrativos ao limitar o desenvolvimento do enredo a visão de um ou mais protagonistas, ou seja, usá-lo simplesmente pela relação custo benefício costuma ser o mesmo que dar um tiro no próprio pé. Como mencionado anteriormente, o filme não explora visualmente as Catacumbas, o terror ou a claustrofobia, então a única possibilidade de aproveitar o estilo de filmagem é jogado fora.

Salva no filme apenas a edição de som excelente e o elenco que apesar de desconhecido cumpre bem os papéis. É interessante ressaltar que se o filme fosse uma produção independente, talvez as falhas não se sobressaíssem tanto, mas o filme é simplesmente um produto enlatado, feito para manter o cinema de horror comercial com promessas vãs e uma tentativa desonesta de enganar o público com um visual requintado sobre um filme cliché, previsível e raso.

Ouso dizer ainda que Harry, Hermione e Rony passaram por provações mais bem elaboradas e assustadoras nos últimos vinte minutos de Harry Potter e a Pedra Filosofal para vencer o mal e recuperar a pedra de Flamel do que a equipe de exploradores em “Assim Na Terra, Como no Inferno”.

Nota: 1.5/5

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