“It Follows”

Sinopse: Uma jovem mulher é perseguida por uma força sobrenatural após um relacionamento sexual. 

Direção: David Robert Mitchell

Corrente do Mal surgiu em 2014, nos festivais de cinema de terror pelo mundo. Em um ano em que o cenário estava fortíssimo com filmes incríveis como The Babadook e What We Do in the Shadows, o diretor estreante David Robert Mitchell passou igual um furacão, levando consigo elogios e mais elogios por seu filme brilhante. O filme foi agendado para lançamento nas plataformas VOD (Video sob demanda, ex: iTunes) no começo de 2015, após um lançamento limitado nos cinemas norte americanos. Filmes independentes raramente são lançados em grande escala, na proporção de um filme como Annabelle (2014) por exemplo, mas Corrente do Mal foi um sucesso tão grande nesse lançamento limitado, que em questão de dias tornou-se viável um lançamento em escala nacional. A estréia virtual foi adiada e vários cinemas por todo os Estados Unidos puderam exibir o filme. Considerando apenas a produção e o lançamento do filme, este já se qualifica como um marco do cinema independente, por ter conseguido um lançamento à nível nacional (nos EUA) baseado única e exclusivamente no sucesso de público e crítica, pelos poucos que tiveram acesso ao filme.

Mas fica aí a curiosidade, por que Corrente do Mal fez tanto sucesso? As razões são muitas!

Os primeiros minutos de filme já revelam dois elementos marcantes responsáveis pela qualidade do filme. O filme é extremamente agradável aos olhos, carregado de planos abertos belíssimos, frutos de uma direção de fotografia confiante e de muita qualidade técnica. A câmera transita entre os ambientes em perfeita harmonia e o resultado é bastante atraente. Se a qualidade visual do filme já nos captura logo de cara, o diretor ainda busca inspiração no mestre John Carpenter; o cenário no qual o filme se passa, por exemplo, um tradicional subúrbio norte-americano, remete claramente ao clássico Halloween (1978). Esse aspecto do filme no entanto, nunca vai além de referência ou influência, o que é um agrado muito bem vindo aos fãs do gênero e que contribui muito para a criação do clima desejado.

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Entra aí outro dos vários méritos de Corrente do Mal, que é a construção gradativa da tensão. É senso comum que o artifício mais utilizado pelo terror contemporâneo é o “jump scare”, que se baseia em utilizar sons altos e repentinos para assustar o espectador. Não existe aquela sensação de ameaça constante, que persiste além do filme. A tensão provocada é com a antecipação de um susto e nada mais; ela aumenta e é descarregada em pequenas quantidades ao longo do filme. Este recurso tem seu valor, quando bem utilizado, vide o filme Sobrenatural (2010) de James Wan. O problema surge quando tal artifício se torna a única ferramenta do filme. Tendo isso em mente, Corrente do Mal faz exatamente o contrário, deixa os sustos fáceis inteiramente de lado, em prol da construção da tensão durante todo o filme. John Carpenter fez isso de forma brilhante em Halloween ao sustentar a presença misteriosa de Michael Myers ao longo do filme, forçando o espectador a saber que algo está perseguindo as personagens, mesmo que estes não o saibam. Tal recurso já era utilizado e defendido pelo gênio do cinema Alfred Hitchcock e é exatamente o que acontece em Corrente do Mal. Sem se preocupar com explicações, o filme apenas apresenta a ameaça e não a deixa ir embora em momento algum. Os planos abertos do filme sempre mostram um fluxo de pessoas ao fundo que alimenta o sentimento de tensão e de que há algo espreitando. Tal artifício que aqui é usado de forma brilhante, transformou Corrente do Mal em um filme genuinamente assustador, sem nenhum porém, e que se destaca completamente dos outros filmes do gênero. É de se esperar inclusive que o grande público, já tão acostumado aos sustos fáceis e explicações mastigadas, não vá digerir bem o filme.

Outro elemento digno de nota é esta ameaça, ou a “Coisa” que dá nome ao filme. Aqui prefiro não entrar em detalhes pois este é um filme que se beneficia da falta de conhecimento a respeito do que se passa. No entanto, é suficiente dizer que a “Coisa” é completamente diferente de tudo que existe no Terror, sendo difícil categorizá-la dentro de algum subgênero. A concepção do monstro se deu por meio de um pesadelo do diretor. Em uma época em que não apenas o terror, mas o cinema como um todo é profundamente marcado por falta de originalidade e reciclagem constante de ideias, um filme que explora uma ameaça inédita e segue um estilo narrativo totalmente oposto ao tradicional, é simplesmente louvável. Ao contrário dos filmes em que comportamentos estúpidos são falta de um roteiro decente, em Corrente do Mal é um clichê utilizado propositalmente.

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O elenco, apesar de desconhecido, entrega uma série de ótimas performances; o que uns ainda não tem em habilidade de atuação, compensam em investimento nas personagens. Destaque para a protagonista Maika Monroe. Outro ponto interessante do filme é que ele parece existir um microcosmo, no qual a participação direta dos adultos se mostra irrelevante. Essa ausência de personagens adultos, clássica alegoria do Terror, aqui ainda cumpre uma função metafórica muito grande, já que os adultos controladores e supervisores aparecem em detalhes relativos a “Coisa”; há no filme uma grande atenção aos detalhes, que demanda uma dedicação extra as imagens em cena, para que certos acontecimentos possam fazer sentido. Em Corrente do Mal, não existem explicações fáceis; não há o tradicional personagem com um conhecimento oportunamente exato sobre os acontecimentos, muito menos uma rápida pesquisa na internet que revela todos os detalhes necessários para solucionar o problema. As metáforas ainda vão além; sexualidade adolescente e dramas familiares por exemplo. Certos elementos permanecem em aberto e também demandam um comentário mais complexo, que pode ser encontrado na análise com spoilers que fiz do filme.

Cabe ainda uma menção a trilha sonora absolutamente fantástica de Corrente do Mal. Não apenas o filme encanta visualmente, como as músicas criadas pelo artista Disasterpeace são perfeitas; se enquadram em um estilo musical popularizado por John Carpenter e que mais uma vez está conquistando espaço no gênero, o chamado synthwave, músicas executadas em um sintetizador, com uma pegada futurística.

Corrente do Mal é merecedor de todas as críticas positivas que recebeu, por ser um filme original, criativo, de execução impecável e que nos segue mesmo após o final, seja por sua temática assustadora ou pelas músicas e imagens fantásticas. Até o momento, é o filme de terror do ano e dificilmente encontrará um oponente digno; se resistir ao teste do tempo, será forte concorrente à melhor filme da década. Resta torcer para que o David Mitchell não seja diretor de um só filme e muito menos que deixe se levar pelo rótulo de “Novo John Carpenter” que parece estar rondando sua carreira.

Nota: 5 Coisas te perseguindo para Corrente do Mal (95/100) 

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7 comentários sobre “Corrente do Mal (2014-2015)

  1. Como é bom assistir um filme e encontrar alguém com a mesma opinião que a nossa! Fiquei deslumbrado com a fotografia, trilha sonora, história inovadora e a não existência de explicações fáceis! Parabéns pelo site, já o favoritei!!!

  2. Pingback: C | Dead Dans

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